Grão

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 2020, Instalação fotográfica,40 impressões pigmento mineral sobre papel Matt Fibre, 20x 30 cm

Instalação fotográfica

Instalação fotográfica

 

Grão pode ser um pixel, um fragmento muito pequeno de rocha, uma semente, um ponto no infinito, um respiro. Grãoé também o título da série de fotografias de Ruchita aqui apresentadas. De longe, muito longe, cada fotografia que compõe a instalação é um grão que, por sua vez, contém dentro de si milhares de grãos e que, seguindo esse ciclo infinito, representa outros tantos milhares, de grãos. Grão é semeadura, como aponta Gilberto Gil em sua composição “Drão”, na qual ele diz: “Se o amor é como um grão! /Morrenasce, trigo/ Vivemorre, pão”. Mas grão pode ser também, se concordarmos com a poética de Gil, uma semente de ilusão, pois “tem que morrer para geminar, ressuscitar no chão”.

Por ser e conter grãos, esta série foi organizada como uma instalação, ela sempre se transforma, segue impermanente. Lado a lado e umas sobre as outras, as fotografias formam um grande painel que pode ser visto nas mais variadas ordens, propondo, assim, infindáveis diálogos e narrativas, que vão do micro ao macro, da pele do corpo à pele da paisagem. Impermanente também é a vida e é isso que Ruchita parece nos dizer com essa série, ao deslocar seu corpo na paisagem, e performar utilizando apenas o que está à mão: sua câmera. 

 
 

Ao observarmos as fotografias, percebemos que as texturas se modificam lentamente, formando linhas e desenhos na superfície do papel. São elas marcas do tempo, fragmentos de escuta do vento, do ir e vir das águas do mar que avançam na praia e se retraem, como uma dança. Alberto Caeiro, um dos pseudônimos do escritor português Fernando Pessoa, já dizia: "Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. / Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. / Mais vale saber passar silenciosamente / E sem desassossegos grandes". É assim também com Grão, vale saber passar silenciosamente. Também é assim com o mar, e com o vento: suas passagens pelas superfícies da terra ficam lembradas no chão, como uma recordação que dura apenas o tempo de ser relembrada, dia após dia, instante após instante. 

Neste ponto, vale relembrar Heráclito de Éfeso, em sua famosa passagem que diz: "Nós não podemos nunca entrar no mesmo rio, pois, como as águas, nós mesmos já somos outros”. Esta série de fotografias nos permite observar que a passagem do tempo vem do chão, do movimento da areia e do corpo, que aparece sempre cortado e entrecortado pela paisagem que o completa. Por serem tão monocromáticos em alguns momentos, os desenhos chegam a lembrar escritas, textos formados por leves nuances de cores e texturas, que nos colocam diante de, ao mesmo tempo, um micro e um macrocosmos. Cosmos esses que se constroem pelo olhar de Ruchita, no qual o grão é o que nos permite pensar o mundo, atestando sua condição instável e fractal. 

Grão, aqui, perturba a ideia de estabilidade e nos coloca diante de um paradoxo que é próprio da arte e da fotografia: como lidar com a eternização de um momento que está sempre por se transformar? Como capturar o tempo, o impalpável, a infinitude? O grão seria, afinal, o que sobrevive da matéria?Grãorevela, assim, sua complexidade, ao não se entregar facilmente, ao jogar com o espectador, ao apontar para nossa própria efemeridade. Grãos se dispersam e se perdem, para então retornarem como paisagens internas, num jogo de dentro e fora, e de escalas, entre o que está aqui, ao alcance das mãos e dos pés, e o que está lá, de longe, do alto, da paisagem estranha e aérea que vai se formando a partir do nosso olhar.

 
Instalação fotográfica

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