Agora Percebo

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Proposição artística que utiliza o Instagram como plataforma expositiva, 2020, em andamento.

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Você tem interesse em participar de um trabalho de arte sobre o momento que estamos vivendo? 

A artista Ruchita está lançando mais um convite aberto para que diferentes pessoas façam parte do projeto AGORA PERCEBO, uma obra multimídia e de construção coletiva. A primeira fase de quarentena, foi constituída por inúmeros participantes e está exposto no perfil @agorapercebo.

 Agora, que já passamos do primeiro momento de isolamento social, entramos em uma fase nova, onde os limites da pandemia e da normalidade se borram, com isso novas percepções do presente e a continuidade do projeto.

 O que você está percebendo agora?

Responda esta pergunta em forma de fotografia, vídeo ou áudio em qualquer formato e duração e envie para hello@ruchita.art ou por direct mensagem no instagram.com/agorapercebo

Lambe, Impressão jato de tinta em offset A1

 

Agora Percebo

2020, Instalação multimídia: cubo de 5m2 de madeira, 281 fotografias de dimensões variáveis impressas em papel Canson Photo Mat e vídeo 5’49’’, loop.

Trechos do vídeo


De uma hora para outra, o mundo que conhecíamos se transformou em um redemoinho de incertezas. Um inimigo invisível desestruturou rotinas, relações, trabalhos e nossas percepções sobre o espaço público e privado, a relação entre os corpos, e nosso olhar sobre o eu e o outro. AGORA PERCEBO pode ser compreendido como o testemunho de um momento único na vida das pessoas em todo o planeta, um compartilhamento do abismo de cada um. Abismo é aqui o lugar das incertezas, dos medos e das angústias, daquilo que sequer sabemos nomear. Nas palavras de Gonçalo M. Tavares, “o corpo é um reservatório sem fundo. / Tudo o que é mundo vai lá parar. / Temos o corpo muito cheio. / A movimentação lá dentro torna-se complicada”, tão complicada que a pandemia nos fez olhar para dentro, criar maneiras de reconstruir pilares compondo uma estrutura interessante de sororidade e alteridade.

Após a divulgação das recomendações de isolamento social devido à pandemia, Ruchita fez um convite aberto com três instruções para que as pessoas colaborassem com o envio de mídias que apresentassem fragmentos do seu cotidiano, dos seus momentos mais intimistas, de suas percepções, ou seja, dos seus “agoras”. Começou assim o projeto AGORA PERCEBO. A artista instruiu os participantes a pararem por um instante, respirarem, olharem para si e observarem o agora. Ao perceberem seu entorno, eles deveriam registrar como estavam sentindo seu corpo e sua mente naquele momento, ou seja, iniciar uma navegação para dentro de si. E essa mudança de foco, de perspectiva mesmo, do exterior para o interior, é o que torna esse projeto instigante e intenso. 

Com uma câmera, celular ou gravador, 54 pessoas de diversas regiões do mundo mostraram três instantes distintos em forma de áudio, vídeo ou fotografia. Os registros poderiam ser feitos em qualquer ângulo ou perspectiva, capturando um detalhe, uma luz, um espaço, um objeto, algo muito longe ou muito perto, em movimento ou estático. Poderiam, ainda, captar palavras, sons, movimentos, silêncios, emoções, espaços, utilizando qualquer recurso para se expressar, para nos fazer ver e sentir o seu instante, a sua percepção do agora, a sua cosmovisão: o que estava dentro de si. 

Imagens que compõem a instalação Agora Percebo


Em “A poética do espaço”, Gaston Bachelard afirmou que: “o espaço percebido pela imaginação não pode ser o espaço indiferente entregue à mensuração e à reflexão do geômetra. É um espaço vivido. E vivido não em sua positividade, mas com todas as parcialidades da imaginação”, ou sejaa casa é um lugar topofílico por natureza, um espaço que possui uma localidade geográfica e, ao mesmo tempo, é rodeado de afetos, de relações e de percepções, é o elo afetivo entre a pessoa e o lugar. De certa forma, o ambiente da casa durante o isolamento social retomou toda sua potência imaginativa, com dores, risos, suspiros, medos e dança; com pés, peitos, ventres, olhos e bocas; com salas, tapetes, gatos, plantas, cortinas e janelas. Enfim, tudo que forma esse novo espaço de estar: a casa – que deveria ser o espaço de estar por excelência, mas que, pela correria do dia a dia acabou se transformando em um lugar de passagem. 

Os fragmentos das imagens capturadas foram organizados nesta instalação fotográficacomo uma tentativa dereorganizar os espaços – dentro e fora de si. Como nos falam os primeiros versos do poema “Louvor do lixo”, da portuguesa Adília Lopes: “É preciso desentropiar / a casa / todos os dias / para adiar o Kaos”. Enquanto o caos se instala nas questões públicas, no ‘lá fora’, tirar alguns minutos para olhar para dentro de si, para o privado, é um gesto necessário para desentropiar pensamentos, sensações e reações. 

Toda essa potência imaginativa foi editada e organizada para compor a instalação multimídia AGORA PERCEBO. O projeto comporta dois formatos, um vídeo e uma instalação com as fotografias, cujo projeto arquitetônico foi idealizado por Ruchita e desenhado por Gabriel Villas. Editado em duas telas, os vídeos surgem aqui como uma visita ao íntimo das pessoas, entramos nas suas casas e nos seus pensamentos, sonhos e sensações, sentimos como se estivéssemos próximos, muito próximos, uns dos outros: nos tornamos qualquer coisa de intermédio. AGORA PERCEBO é título e também um convite à reflexão, à mudança de perspectiva, de pontos de vista. 

A instalação é composta por 281 fotografias, que ocupam todo o seu espaço interno, do chão ao teto e, inclusive, o próprio teto. Este cubo de madeira de 5 m² totalmente escuro por dentro comporta apenas uma pessoa por vez. Durante a exposição, uma lanterna é disponibilizada ao público para que este possa ver e explorar as imagens. Desta forma, a artista concebe um ambiente que reflete a vivência das pessoas durante a quarentena, um espaço dúbio, que se transforma a cada vez que é experienciado. Se por um lado pode parecer claustrofóbico, por outro é intimista e reconfortante, um espaço de respiro e conexão. Devido ao grande número de mídias recebidas dos participantes do projeto, tanto o vídeo quanto a instalação contaram com um processo de edição e sistematização, no qual a artista propôs aproximações poéticas entre pessoas e coisas, momentos e espaços. 

Por fim, este trabalho lida com modos de construção e entendimento de um tempo que não é cronológico, mas anacrônico, ou seja, ele lida com experiências de tempos não lineares, em perpétua transformação. Como já dizia Gilberto Gil, “Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei / Transformai as velhas formas do viver”. AGORA PERCEBO é tudo isso, é tempo que escorre, é espaço que se movimenta, é respiro e suspiro, são as coisas que querem sair, são as coisas que querem entrar, é o abismo que existe em cada um de nós.

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Instalação fotográfica: cubo de 5m2 de madeira e 281 fotografias de dimensões variáveis impressas em papel Canson Photo Mat