Textos
"O trabalho de Ruchita não está preocupado com os detalhes ou a natureza de eventos específicos ou situações. Não há ação aqui, nenhuma indicação de causalidade. Ao invés disso, o trabalho conversa com a profundidade, a simplicidade e a pureza dos traços emocionais acentuados, distorcidos e muitas vezes reprimidos pelo prisma do tempo.
As imagens não gritam. Elas não exigem a pretensão da empatia superficial. Elas simplesmente pedem um momento de reflexão silenciosa e compaixão pela formidável eloquência da condição humana que compartilhamos e para com a qual assumimos a responsabilidade em comum.
Esta exposição é sobre as verdades emocionais não ditas que marcam indelevelmente a nossa existência. Como indivíduos, nós não seguimos um caminho comum durante a vida, mas todos compartilhamos um fio comum que tece um poderoso vínculo invisível, muitas vezes ignorado ou negligenciado na existência apressada da sociedade contemporânea - uma sociedade que nos pressiona a confundir voluntariamente a necessidade libertadora de compartilhar nossos estados emocionais com a do sentimentalismo banal. Parece-me que a falha em distinguir entre os dois pode conduzir a uma forma socialmente destrutiva de pobreza emocional."
SCOTT MACLEAY
Curador
“Feitas a golpes de pequenas introspecções, esta exposição se dedica a explorar nossos íntimos, nossas inúmeras amarras invisíveis resultantes de condicionamentos sociais. Apresentadas nos suportes de vídeo e fotografia, essas obras desvelam nossas próprias prisões, ao mesmo tempo em que instauram uma relação de forças, um campo aberto de vetores que se movem em todos os sentidos. Talvez estejamos falando de obras sem rabo nem cabeça, para usar uma expressão do historiador da arte Didi-Huberman, obras que não estão fechadas no limite de um começo (a cabeça) e de um fim (o rabo). Deste modo, elas também não se submetem à hierarquias, posto que são inesgotáveis. O procedimento de criação de Ruchita passa pela escuta, pela captura de ruídos dentro dessa massa de barulhos às quais estamos imersas, ruídos que são, em suas obras, transformados em texturas, em sobreposições, em empilhamentos, em coberturas, em rumores. Nesse sentido, rumor é o ruído de coisas que se deslocam, o murmúrio de coisas ou situações que mudam de lugar. As obras de Ruchita ocupam um lugar paradoxal em nossos espaços de visibilidade, porque elas sussurram, elas falam em segredo. Um paradoxo que pode ser visto, ou pensado, também como dissenso, como algo que é e está entre uma coisa e outra, entre o fluido e o estático, o rígido e o flexível, a natureza e o artificial, o visível e o invisível, a multidão e a solidão, a violência e a complacência. Por fim “Imagens loucas, com tinturas de real” contempla um conjunto de imagens que evidenciam e intensificam o real, elas afirmam o passado dos objetos, coisas, sentimentos, amarras, angústias e respiros que já não estão apenas ali, mas aqui. A imagem louca na obra de Ruchita revela uma forma de alucinação temperada: ao mesmo tempo que a artista performa gestos e sentimentos notáveis, ela decreta notável aquilo que ela fotografa, filma, instala e performa. Precisamos ir além desse campo de visibilidade, justamente porque o que temos aqui são obras que se dedicam a tornar visíveis outros mundos, outras pessoas e outras relações que escapam à própria arte."
KAMILLA NUNES
Curadora