FACE À IMPERMANÊNCIA
Em minha pesquisa artística aprecio mais os processos do que seus resultados. Tal atitude conduziu minha atenção à filosofia japonesa, sobretudo à observação da estética Wabi-sabi, que valoriza a percepção de como nos constituímos diante do mundo, ao invés da mera auto-expressão.
Face à Impermanência é um projeto iniciado em 2018 durante uma viagem de imersão na cultura nipônica. Trata-se de um grupo de trabalhos em andamento incluindo performances para vídeo instalações, fotografias e obras multimídia, baseadas em improvisações espontâneas nos locais em que entrei em contato com Wabi-sabi.
A estética Wabi-sabi é constituída por inúmeras qualidades que se relacionam com características tais como, simplicidade, atemporalidade, vazio, assimetria, imperfeição, impermanência, intimidade, transitoriedade, e rusticidade. Ainda que todos estes aspectos estejam refletidos nas obras que integram este projeto, a transitoriedade se destacaria como algo que interliga o conjunto.
Quando passei a entender a filosofia do Wabi-sabi como um sentimento mais do que uma ideia, me dispus a realizar exercícios reagindo a um contexto muito contrastante ao meu cotidiano. As ações que realizei consistem em tentativas de me conectar a este estado de espírito baseado na simplicidade natural e na constatação de que nada permanece, nada está acabado e nada é perfeito.
A perfeição ideal é irreal, não é natural. Nossa sociedade vive a compulsão pelo novo, descartando prontamente o que não é mais novidade. Busco, por meio da minha prática artística, me aproximar de situações que permitam dilatar os sentidos, desacelerando o automatismo frenético do materialismo contemporâneo. Para tal, além de me colocar em uma atitude de ressonância em ambientes permeados por uma cultura ancestral que sobrevive ao choque do desenvolvimento tecnológico, a fim de evidenciar ainda mais as associações ao Wabi-sabi, pintei meu rosto sugerindo marcas de Kintsugi para a realização das performances.
Kintsugi é a arte japonesa de reparar uma cerâmica quebrada com laca misturada com pó de ouro, tratando os reparos como parte da história dos objetos, ao invés de algo a ser disfarçado ou rejeitado. Esta técnica faz parte do escopo filosófico de Wabi-Sabi por abraçar as falhas e a imperfeição, incorporando as mudanças trazidas como cicatrizes preciosas.
Face à Impermanência pretende instigar a percepção a partir da incerteza, o olhar contemplativo atento aos acasos, que deixa de lado a busca por conclusões lógicas. Por meio da contemplação os japoneses enxergam a natureza como um modelo a ser seguido e reverenciado: unem-se a ela em vez de quererem conquistá-la. A transitoriedade é aceita e valorizada como um estado natural, pois nada é estável e permanente no mundo. Nosso refúgio está em aceitar e até mesmo celebrar esse fato.
Estar Sem Estar
2018, vídeo, 8’09’’, loop
Trechos do video
Em minha visita ao Japão eu tinha a expectativa de vivenciar o sentimento Wabi-sabi na vida cotidiana, porém o espírito Zen e sua habilidade de influenciar a contemporaneidade nipônica tem enfraquecido durante as ultimas décadas. Neste exercício performático busquei manter um estado contemplativo enquanto permanecia parada no cruzamento de Shibuya em Tokyo, uma das esquinas mais movimentadas do planeta.
O vídeo que registra a ação ressalta o contraste da minha imobilidade com o fluxo intenso de transeuntes ao meu redor indiferentes à minha presença. Assim, torna visível a contradição de uma cultura ancestral arraigada em valores contemplativos que vem cedendo ao frenesi do materialismo contemporâneo. Nesta situação constatei que o Wabi-sabi pode ser uma questão marginal para as pessoas que moram nas atuais megalópoles.
Justamente para acentuar o quanto a paisagem das metrópoles nipônicas atuais não condiz com o ideal zen wabi-sabi, a filmagem foi feita em câmera lenta para ressaltar esse paradoxo cultural. Diante de tantos estímulos sensoriais tem se tornado cada vez mais difícil manter um estado de espírito sereno dentro da velocidade urbana descontrolada.
Por outro lado, é surpreendente constatar o quanto os conceitos do Wabi-sabi ainda parecem estar presentes de forma natural nas atitudes deste povo, como por exemplo, sua capacidade de manter a atenção e não distrair-se com o exterior. Ao ponto de seguirem em meio ao caos da multidão e, continuarem suas rotas e seus caminhos passando por mim sem sequer olhar para a câmera. O que a principio poderia aparentar uma atitude indiferente, na realidade pode ser reflexo de características culturais milenares que, no final das contas, talvez não tenham sido totalmente ofuscadas pela confusão moderna.
Still do video
Presente, outra vez Presente
2018, vídeo single channel dividido em 3 janelas, 13’37’’, loop
Trechos do video
Quando estive em Kyoto pude participar e registrar o ritual da cerimônia do chá. O que me atrai nessa tradição é o como ela nos leva à prestar o máximo de atenção a tudo acontecendo nesse preciso momento, à estar presente integralmente no aqui agora.
Os movimentos são econômicos e precisos. Cada gesto, cada momento é significativo e conciso, a fim de nos conduzir a um estado contemplativo no qual nos despojamos do excesso de pensamentos. A ênfase é dada naquilo que é essencial. A intensa concentração requerida para performar a cerimônia, é tanto uma disciplina quanto uma purificação através da qual a mente foca no microcosmo da sala de chá, deixando o restante das preocupações da vida se dissolverem.
O vídeo foi filmado como um plano sequência, e posteriormente editado de forma a ser apresentado em três janelas, uma sobre as outras, apresentando estágios diferentes de uma narrativa circular. Através do gesto repetitivo de ações cíclicas esse processo vai desenvolvendo camadas de consciência por meio da contemplação, que nos conduz da superfície à profundidade.
O processo de edição se baseia na repetição de formas similares na imagem, enquanto o áudio vai diminuindo a quantidade de estímulos, de forma a refletir o estado vivenciado pelo participante na cerimonia do chá, no sentido da intensificação da concentração e introspecção.
Still do video
Ressonâncias
2018, vídeo-projeção, 5’28’’, loop
Trechos do video
Depois de visitar um templo zen em Kyoto me deparei com uma distinta cerejeira no jardim externo que estendia um vasto tapete de pétalas ao seu redor. Senti o impulso de me deitar sob ela para apreciar melhor a beleza de seus ramos, observar sua cor suave, o contraste com o céu, perceber seu aroma, e tudo isso acabou me despertando o sentimento de wabi sabi. Tal sensação incitou em mim a realização de movimentos lentos associados a uma respiração mais profunda, conduzindo a um estado de consciência em sintonia com os fluxos naturais.
Deitada sobre tantas pétalas caídas pondero sobre a efemeridade do florescer. As flores de cerejeira duram pouco tempo nos galhos, sendo assim, um fenômeno fugaz que lembra a transitoriedade da nossa própria existência. Geograficamente, sakura zansen – nome dado à floração das cerejeiras – começa no sul do Japão e se estende progressivamente em direção ao norte, percorrendo o país como uma onda, no decorrer de dois meses apenas.
Na edição do vídeo optei por deslocar minha imagem totalmente à direita da cena, sugerindo que há uma continuidade entre meu corpo e a paisagem. Existe uma interconexão implícita entre o estado interior e o mundo exterior e, portanto, a relação dos meus gestos com o movimento da paisagem na área esquerda do vídeo, simbolizam o quanto nossas ações também ecoam no meio ao nosso redor. De forma que nossos movimentos ressoam sempre de alguma forma na realidade externa, sendo simultaneamente afetados um pelo outro
Still do video
Tudo Aqui
2018, vídeoinstalação (projeção Full HD em três telas), 5’07’’, loop
Trechos do video
O jardim Zen japonês cria uma paisagem em miniatura através da cuidadosa composição de pedras, águas, musgos, árvores e arbustos. É relativamente pequeno, cercado por uma parede e geralmente concebido para ser visto sentado desde um único ponto de vista fora do jardim. Portanto, o formato dessa instalação tenta replicar tal posicionamento de modo que o observador contempla os três vídeos simultaneamente a partir do banco colocado em frente as telas que são propositalmente pequenas.
Como as demais expressões de wabi-sabi o jardim japonês não apenas nos convida a sentar e disfrutar de algo atraente, mas a nos colocarmos em um estado mental aberto ativamente envolvidos na compreensão do jardim como metáfora do Universo.
Na forma da apresentação da obra é possível visualizar as três sequências como um todo. A narrativa perpassa entre elas sem priorizar nenhuma em separado das demais, evidenciando a interação entre seus elementos que formam um microcosmo, tal qual o jardim.
A tela frontal se mantem integralmente preenchida do começo ao fim, mas as laterais apresentam cortes assimétricos e variações na escala. Com isso é criada uma dinâmica que explora proporções geométricas brincando com a transitoriedade rítmica nos espaços vazios entre as imagens.
Em paralelo a isso, o áudio da instalação também traz variações rítmicas que culminam com a declamação de três poemas japoneses versando sobre o transitório.
Still do video
O intervalo que dá forma ao todo
2018, vídeo-projeção, 5’04’’, loop
Trechos do video
A obra é composta a partir de fragmentos de vídeo criando composições em que exploro o vazio ativo entre os elementos na tela. De forma equivalente, a trilha sonora também possui pausas momentâneas que imprimem um ritmo dinamizando o contraste entre silêncio e ruído, ou o vazio e a imagem.
O projeto faz alusão ao conceito filosófico japonês MA, referente ao espaço negativo, que não é um espaço vazio, é um espaço aberto, em branco. MA pressupõe estar presente no momento, incidindo em uma pausa da fala e do pensamento.
Neste vídeo vemos apenas fragmentos de imagens pulsantes através de estreitas frestas, de forma que a sequência narrativa é interrompida por grandes vazios. As pausas dilatam o tempo e conforme continuamos assistindo nossa sensibilidade se adapta e passamos a apreciar a beleza da lentidão. As composições repletas de lacunas nos compelem à completá-las, projetando nossa subjetividade no espaço em branco.
MA é o espaço-tempo fundamental que a vida precisa para se desenvolver, se não tivermos tempo e se nosso espaço for restrito, não conseguimos crescer. A narrativa permanece em suspensão o longo de quase toda a obra, porém, de repente, a imagem se expande ocupando toda a tela, revelando a performance que estava acontecendo por entre as frestas.
Still do video
Do nada ao nada
2018, instalação composta por vídeo projeção sobre parede e três telas em branco medindo 24cm x 42cm cada, com chassi que varia de profundidade entre 5cm, 2.5cm e 1cm. Duração 5’22’’, loop
Trechos do video
Na obra “Do nada ao nada” busquei o sentimento de Wabi-sabi em caminhos dentro de jardins japoneses. A filmagem retrata trilhas dentro desses ambientes naturais ordenados, capturadas em mais de uma localidade. São 4 canais de vídeo apresentados dentro da mesma projeção, montados em quatro planos distintos: a parede e a sobreposição de três telas de pintura com profundidades diferenciadas dispostas irregularmente. Com exceção do fundo, as imagens projetadas nas telas variam de velocidade e posicionamento constantemente. A paisagem no fundo tem um movimento pendular que vai e vem no mesmo lugar, imprimindo um ritmo diferente ao das telas que mostram trajetórias que sempre seguem adiante.
Atualmente, por sermos bombardeados por muitos estímulos, temos dificuldade de estar presente no aqui e agora. Assim, muitas vezes, nossos passos ficam à deriva enquanto nosso horizonte pendula, como no plano de fundo da projeção. De qualquer maneira ambas imagens não chegam à lugar nenhum evocando que o caminho é em si o meio e o fim.
A filmagem apresenta dois pontos de vista, uma câmera voltada para o caminho que está sendo trilhado, enquanto a projeção atrás mostra a perspectiva do ambiente ao redor do caminhante. A câmera que mostra o caminho personifica o momento presente que está sendo vivido. Já a imagem de fundo não corresponde sempre ao mesmo ponto daquele trajeto, como uma analogia interessante para o quanto nós seres humanos muitas vezes vivemos nossas vidas focados em metas que não condizem necessariamente com a direção para onde os nossos passos estão nos levando intuitivamente.
Still do video
Esse movimento perpétuo
2018, vídeoinstalação: projeção sobre areia depositada diretamente sobre o piso na mesma dimensão do vídeo, 200 cm x 80 cm. 5’43’’, loop e instalação fotográfica, dimensões variáveis
Trechos do video
O meu interesse pela observação dos processos de influência mútua entre a matéria e o imaterial me inspirou a projetar o registro da performance que fiz na praia de Naoshima sobre areia real no espaço expositivo.
Nesta ocasião, a praia estava recoberta por algas de diversas tonalidades e texturas. Fui atraída pela beleza inusitada que parecia formar microuniversos complexos contidos dentro de pequenas extensões de areia. A escolha por filmar com um plano fechado em escala menor, torna os detalhes mais visíveis nítidos. Quero ressaltar tal beleza não óbvia e transitória.
O desaparecimento lento das algas depositadas nas encostas é um processo efêmero, constituindo um ciclo de decomposição e reintegração ao todo. Em função disso, no vídeo adoto uma estratégia de aparição e desaparição da minha imagem, em sintonia com a própria evanescência da vida.
Nesta obra proponho camadas de fusões: incialmente minha imagem mimetiza-se com a paisagem de fundo no vídeo e ambos por sua vez se fundem com a areia real que recebe a projeção.
Somado a isso o uso da areia aqui simboliza o infinito; a unidade que se indistingue da totalidade. Ao refletir sobre a relação de cada grão incluído em um montante de areia percebemos a alusão à fusão do indivíduo na natureza. Você faz parte de uma rede que é maior do que você.
Still do video
Instalação Fotográfica
Impressões jato de tinta com pigmento mineral em papel de algodão
À beira do vazio
2018, série de 10 fotografias impressas a jato de tinta em papel algodão, 60cm x 70cm cada
Impressão jato de tinta com pigmento mineral em papel de algodão.
Em paralelo às filmagens realizei alguns ensaios fotográficos captando detalhes que ressaltam sutilezas encontradas nos ambientes por onde passei. O assunto abordado nestas imagens vai além dos objetos em si fotografados, pois sua força reside na visão que emerge naturalmente da simplicidade. Trata-se de um tipo de olhar que reconhece nobreza nas simples marcas da transformação.
O enquadramento das cenas nos convida a apreciar esteticamente minúcias de situações banais, plenas de significados um tanto abstratos para a mentalidade ocidental, que requerem o refinamento de valorizar a rusticidade daquilo que sofreu a ação do tempo.
Além disso, a fim de evocar valores que estão para além do visual, mas que se nutrem de um envolvimento sensorial, a forma como as imagens são posicionadas dentro das margens, e a relação destas com o espaço exterior é dinâmica neste projeto. A área em branco ao redor das fotografias é consideravelmente maior do que elas, e, em geral, tem proporções assimétricas. A dualidade entre figura e fundo acontece na primeira instância no próprio plano da imagem, mas posteriormente ocorre também entre as obras e seu contexto exterior. Assim, a alternância entre o cheio e o vazio em cada peça forma elementos que, por sua vez, pontuam os respiros entre eles como se fossem frases rítmicas que modulam a sensação que temos diante do conjunto todo. Esta dialética revela a poesia nos intervalos da relação entre o ser e o não ser.
Instalação Fotográfica
Impressão jato de tinta com pigmento mineral em papel de algodão.
Dissolução
2023, série de 6 fotografias impressas a jato de tinta em tecido poliéster, 63cm x 200cm cada
Impressão jato de tinta em tecido poliéster