Escalada

 

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2021, vídeo, 22’45’’, loop, dimensões variáveis

 Trechos do vídeo

 

Escalada, no jornalismo, é a sequência de manchetes apresentadas logo na abertura de um telejornal, que resume os principais assuntos que serão abordados naquela edição. Escalada também se refere ao aumento do contágio e do número de mortos, relacionando-se à catástrofe da pandemia e à sua necessária e urgente reversão. A soma desses dois aspectos fez com que Escalada passasse a ser, também, o nome deste trabalho instalativo, performático e videográfico, realizado por Ruchita, em parceria com a artista Mitushi, em março de 2021. 

Trata-se de uma espécie de palimpsesto, no qual Ruchita realiza uma ação sobreposta a 49 manchetes nacionais de canais de televisão, e de canais jornalísticos e informativos do YouTube acerca da calamidade causada pela pandemia da Covid-19 no Brasil, que, neste momento, se tornou o epicentro da doença, com cerca de 500 mil mortos. A maneira como a artista lida com este momento histórico é a partir da potência imagética, sonora e corporal, a qual se constitui aqui como uma intensidade ética, política e poética, que privilegia a força na própria dor.

Com Escalada, Ruchita marca o êxtase e o extravio da razão como o modus operandi da sobrevivência, aliado ao sentimento de fracasso e de medo. Para o filósofo e ativista Franco Berardi, “na tempestade viral, o poder parece estar abalado e a potência, aniquilada, enquanto o fluxo caótico de possibilidades invade a paisagem da evolução humana”. Com o passar do tempo, o corpo da artista vai sendo tomado pela terra em forma de argila, tomado ou moldado, impregnado, impedido de se movimentar. Mas em vão, sempre em vão, visto que a performer sempre se desvencilha através de movimentos intensos e catárticos.    

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Still do vídeo

No total, são 22 minutos agonizantes, em que a artista sofre constantes tentativas de violência e aprisionamento, momentos em que o grito se sobrepõe à realidade das notícias que não cessam, das manchetes que, dia após dia, não nos deixam esquecer a dor dos outros, e a nossa própria. Ao retomar o pensamento de Martin Luther King, é possível compreender que “nossa geração vai ter que se arrepender não apenas das palavras de ódio e das ações dos maus, mas do silêncio devastador dos bons”. Escalada surge como uma tentativa de não silenciar diante do genocídio que testemunhamos.

Com essas condições temporais, a artista nos pergunta: Como dar conta dessa realidade intolerável? Como lidar com a raiva e a impotência diárias? Como gritar quando nos falta a voz? Que futuro há por vir? Voltando a Berardi, “não há como saber como sairemos da pandemia, cujas condições foram criadas pelo neoliberalismo, por cortes na saúde pública, por superexploração psíquica. Definitivamente podemos acabar sozinhos, agressivos, competitivos. No entanto, podemos sair disso com um grande desejo de abraçar: sociabilidade solidária, contato, igualdade”. 

De alguma forma, Escalada nos faz olhar pra dentro, para os buracos que existem em cada um de nós, para as tentativasde nos livrarmos de nossas próprias amarras. No entanto, há sempre um último fôlego, um último grito, uma derradeira esperança, que desaba para logo em seguida dar lugar a um último fôlego, a um último grito, a uma derradeira esperança. 

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