Excertos/Excessos
Trechos do vídeo
Fragmentos sortidos de sequências/tempos. Frases de obras literárias distintas recortadas de páginas antigas e capturadas da lógica textual de origem, reescritas em turvas semelhanças. Um desalinho da história, agora em conjuntura contemporânea, manifestado em materialidades urbanas.
Artuad escreveu durante o período sofrido da peste negra na obra "O Teatro e seu duplo". Assim como o italiano renascentista Giovanni Boccaccio na coleção realista "O Decamerão", na qual relatou a vida acometida pela pandemia. Gabriel Garcia Márquez extrapolou as condições sanitárias de uma cidade portuária em devastação pela disseminação do cólera no livro "O amor nos tempos de cólera". William Shakespeare figurou a frieza da tirania e da disputa que envolve o jogo do poder insaciável e a qualquer preço em Macbeth.
As menções deslocadas de seus volumes registram em comum os excessos de presentes devastados pelo medo, pelas perdas, pela morte, pelo autoritarismo que aniquilam a existência de século em século. Em superfícies concretas, muros da cidade revelam as citações de outrora expostas às intempéries do clima. Letra por letra forma a palavra pincelada em barbotina, uma mistura de argila em água, sensível às condições que a envolvem. Impermanecer é resistência.
Ruchita apropria-se destes excertos selecionados, sincronizando-os nos tempos distantes do ocorrido, revelando que os sentimentos elaborados lá atrás nos apreendem ainda no agora. Inquieta o olhar dos transeuntes fixando nas paredes as marcas deixadas no passado. E questiona quais cicatrizes vão permanecer deste intervalo pandêmico recente.
Série de 9 fotografias, dimensões variáveis
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