No fim, o meio
2024, vídeoinstalação, 40'46", dimensões variáveis
Trechos do vídeo
Na tela, os caminhos vão se abrindo para paisagens longas, distantes e totalmente absorvidas pela melancolia de um tempo que parece suspenso. Os tons de contemplação surgem na medida em que vamos percebendo o jogo de palavras e sensações de uma pessoa por trás da câmera, imersa na paisagem que tem sempre, ao fundo, um ponto de fuga, algo que se parece com um fim e que vamos percebendo, conforme o vídeo avança, que é apenas um meio para se chegar a um dentro — dentro de si.
O meio como fim de algo nos leva a pensar também que a caminhada, ela própria, é o processo, é o procedimento pelo qual as palavras são jorradas para fora, pronunciadas ininterruptamente por um corpo transpassado pela paisagem. Seria este o retrato de uma paisagem interna? Ruchita, como uma caminhante imagina e abraça a busca por futuros possíveis, opondo-se a uma ideia sistemática da vida. E neste ponto, é preciso considerar que ela abre também caminho para um mar de errâncias, derivas e fragilidades.
Simulação da vídeoinstalação
dentro, ansiedade, silêncio, passos, pedras, caminhantes, começo, vindo, indo, chegando, voltando, o começo de um desafio, o começo de uma história, o começo de um relacionamento, soltar, busca, verdade, preenchimento, encontros, descidas, subidas, altos, baixos, desafiador, sensações, fôlego, frio, ar, mochila, doação, entrega, desfrute, sol, noite tranquila, água, tentativas, erros, insegurança, falta de controle, seguir.
À primeira vista, há uma aleatoriedade nestas palavras, talvez a mesma que encontramos na escrita automática de Breton, que originou, pouco tempo depois, o movimento surrealista. Seguimos seus passos solitários por entre estradas sinuosas, por vezes ouvimos o sussurro do vento entre uma e outra palavra, uma e outra pausa. Uma caminhante que nos leva a refletir sobre o paradoxo do tempo, pois sabe que o passo que a leva adiante, é o mesmo que a traz de volta, para seu próprio corpo. E também para o nosso, o do espectador, por extensão. Se a estrada é um ciclo, o meio é o ponto do retorno: nada neste mundo é linear, já o sabemos.
Ainda, em alguns momentos, somos envolvidas por uma espécie de abraço invisível, por um frescor na pele, pelo cheiro da terra que desperta memórias adormecidas. A artista, como caminhante, torna-se também um microcosmo, um universo em si mesma, que mergulha no silêncio para ouvir os ecos de suas próprias ambiguidades. Este vídeo nos oferece o imprevisível contido na previsibilidade do fim, do término de um caminho, oferece a sensação de encontrar algo totalmente inesperado ao saltar de cena em cena, de paisagem em paisagem, de palavra em palavra. O sol não se põe, a caminhada não termina, e nesta ausência de trégua sentimos o pulsar da vida em seus passos. Mas ainda que o retorno seja inevitável, podemos supor que o olhar para dentro é uma escolha, é um dançar com o tempo, com o agora, para encontrar o infinito no finito. No fim, um meio, atravessa a tela para se tornar uma experiência compartilhada.
Still do vídeo