RESSOE

 

2023, vídeoinstalação, dimensões variáveis

 Trechos do vídeo

 

Em RESSOE, o silêncio é utilizado como uma metáfora poética para falar sobre a condição humana, o cotidiano e as complexidades das relações interpessoais em diferentes culturas. Isso porque, mesmo na solidão, todos estamos conectados pela experiência de sermos seres humanos. O silêncio também pode ser uma forma de comunicação não verbal, capaz de transmitir mensagens e significados, uma vez que ele tem sua própria linguagem e potencial de revelar aspectos da experiência humana que não são possíveis de serem expressos em palavras. Além disso, o silêncio é forma de resistência e protesto, uma recusa em falar ou se envolver em um diálogo que é considerado injusto ou opressivo. Em todo caso, o silêncio é percebido nesta obra como uma presença ativa, capaz de transmitir significados e de possibilitar formas de conexão e compreensão a partir de gestos e frequências sonoras.  

Para o compositor e filósofo John Cage, o silêncio é algo bastante complexo e profundo, não pela simples ausência de som, mas por ser uma presença ativa e um componente essencial da música. Ele acreditava que o silêncio é um elemento musical por si só, e por isso fazia uso de sons ambientais e ruídos encontrados na vida cotidiana. Cage acreditava que todos os sons podem ser considerados música e que não há uma distinção hierárquica entre sons musicais e não musicais. Em suas composições, ele incorporava sons como o barulho do tráfego, o som da chuva, o canto dos pássaros e até mesmo o silêncio do público. Nesse sentido, o silêncio é o espaço onde o acaso pode acontecer e onde novas possibilidades musicais podem surgir. 

Para esta instalação, Ruchita partiu de questionamentos surgidos de vivências e interesses interpessoais: Como nos comunicamos sem palavras? Precisamos de palavras para transmitir uma mensagem? Podemos ser tocados/as de maneiras diferentes sem o uso das palavras? Perguntas incômodas e persistentes que ganharam contornos nos gestos e vocalizações de 64 pessoas de diferentes países – Tanzânia, Chile, Colômbia, Uruguai, Espanha, Canadá e Brasil – e de diferentes estados brasileiros – Alagoas, São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. 

 Stills do vídeo

 

 Se a linguagem não verbal desempenha um papel fundamental na comunicação humana, permitindo que nos expressemos, entendamos os outros e nos conectemos, podemos considerá-la uma habilidade fundamental para desenvolver e praticar em nosso cotidiano. Assim, em RESSOE, Ruchita propôs que algumas pessoas enviassem mensagens para desconhecidos (de outras partes do mundo), estes, por sua vez, também enviaram mensagens a pessoas desconhecidas, criando assim uma rede de corpos falantes.

As mensagens, gravadas em áudio e vídeo, são exibidas em 12 telas, formando um panóptico audiovisual imersivo, com o intuito de conectar pessoas através de uma experiência estética e poética. Os sons/ruídos/silêncios sobrepostos criam um ambiente sonoro no qual o zumbido (Humming) constitui uma espécie de suspensão da linguagem. Sabemos que a audição é um processo passivo de percepção dos sons, mas a escuta é um processo ativo que envolve a atenção consciente e os elementos subjetivos, como os sentimentos e pensamentos. E é através desses elementos visuais e sonoros, portanto, que Ruchita propõe uma transmissão de sensações, ideias e conceitos que, muitas vezes, não podem ser expressos apenas com palavras. Isso porque a própria arte é uma forma de comunicação universal, que transcende barreiras linguísticas e culturais, apreciada e compreendida por pessoas das mais diversas origens e culturas.