Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra
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2020, vídeo, 6’07’’, loop, dimensões variáveis
Trechos do vídeo
Em Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra, (2020)a artista desloca-se sobre contornos de cores recém pintados em uma extensa lona branca. A pressão gravitacional impede seu tronco de se descolar do chão, de modo que a força e o impulso dos movimentos provêm dos braços e pernas, que em determinando momento da performance para o vídeo se multiplicam em cortes horizontais e verticais. Ao passar lentamente por sobre os círculos vazados de cores, alternados em pequenos grupos monocromáticos, o corpo é o elemento que confunde o amarelo no laranja, assim como o vermelho no bordô, e esses no azul. Ao longo do percurso da artista em embate com a matéria-cor, uma mancha policromática emerge no chão e se imprime em seu corpo.
Com isso, um dos interesses da obra reside no fato de a palavra cor estar contida na primeira parte da palavra corpo, ao mesmo tempo em que faz alusão à reciprocidade das relações entre sujeito e mundo, sendo a tinta percebida como mundo e o corpo da artista como alegoria do sujeito em constante transformação.
O vídeo é intercalado por movimentos de retração e extensão, nos quais a passagem do corpo pelas diferentes cores adiciona diálogos mudos com o espectador. Encarado pela artista em alguns trechos da obra, este é questionado sobre sua própria ligação com a mais diversa e profusa matéria. Impregnado de manchas, afetado pela mutabilidade decorrente de cada gesto e movimento ou, ainda, desprovido de qualquer experiência com a matéria-cor, o corpo em transmutação no vídeo estabelece distintos diálogos com seu interlocutor.
A obra é marcada por três estados de performance, nos quais a artista encarna distintos nascimentos e mortes, assim como o contato com as múltiplas partes do eu que se conciliam com a experiência. Neste contexto, o movimento que permite o deslocar-se é carregado de uma sonoridade efervescente que parece emergir de suas entranhas, enquanto os outros dois estados são separados, sendo etapas que iniciam e concluem o processo. No primeiro caso, o som de um sino ecoa a anunciar um constante recomeço, enquanto, ao final, o sujeito é jogado para o vácuo do renovar-se que aparece em sua pele impregnada de reminiscências de cor e som. Outro fator determinante da obra são os cortes verticais e horizontais que fragmentam o corpo e funcionam para a artista como os diferentes "estados mentais" que oscilam entre a hesitação e a aceitação ao longo do percurso. Em vários cortes do vídeo o corpo aparece em desalinho, como se estivesse em permanente tentativa de retornar ao eixo que o estrutura, apesar de também buscar em alguns momentos sua própria desestruturação e reconhecer a não linearidade do processo transformativo.
Stills do vídeo