Volta
2024, vídeoinstalação, dimensões variáveis
Trechos do vídeo
À primeira vista, o que “Volta” mostra é um loop de uma mulher andando em círculos, formando, nesse vai-e-vem, uma repetição quase capaz de imobilizar a imagem. Mas “volta” não congela essa personagem toda vez que ela passa pelo mesmo caminho, ao contrário, “volta” nos apresenta a diferença na repetição do gesto. Uma diferença que se dá pelo movimento cíclico em torno de um tempo linear. A cada volta, a volta me transforma — ela me transfigura, me desloca, me metamorfoseia. Meu corpo surge e some, constantemente, ao longo de 90 minutos. A volta não compromete minha liberdade de movimento, pelo contrário: voltar permite que eu possa olhar-em-mim para que, ao fim, possamos todos olhar-em-nós. Embora seja um clichê, ainda acho que vale lembrarmos da clássica frase de Heráclito de Éfeso: “ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários”.
Se concordarmos que o universo é fluido e se encontra em um eterno movimento de expansão e contração, poderemos entender esse trabalho audiovisual a partir de dois sentidos de “volta”, primeiro como um substantivo feminino — um percurso por um itinerário preestabelecido —, e segundo como um verbo — no sentido de reaparecer, como um ato de regressar a um lugar de onde se partiu. Esse ir e vir por um mesmo caminho representa, também, para mim, os ciclos que se repetem constantemente em nossas vidas, como uma espécie de padrão ininterrupto e condicionado, que reproduzimos incessantemente e nem sequer nos damos conta.
Embora o significado mais literal e convencional para o termo “andar em círculos” seja referente ao caminhar ou se mover em um padrão circular, muitas vezes sem fazer progresso real ou avançar em direção a um destino específico, descrevendo alguém que está perdido ou desorientado em um ambiente desconhecido, “volta” dá a ver um retorno em espiral, de onde não se parte nem se chega, mas cria fluxos capazes de entrelaçar tempos, formando ecos. A espiral é encontrada em várias escalas na natureza, desde a forma das galáxias até a estrutura de pequenos organismos. Esse padrão repetitivo levanta questões filosóficas sobre a conexão entre o microcosmo (o indivíduo, o detalhe) e o macrocosmo (o universo, o todo). Assim, é possível pensar que a espiral representa a interconexão e a unidade subjacente em todas as coisas, independentemente de sua escala.
Simulação vídeoinstalação
Envolto por árvores, folhas, pedras e iluminação natural, meu corpo não almeja um ponto de chegada, e, nem mesmo, um ponto de partida, formando diferentes e novos sentidos para “Volta”: poéticos, estéticos e políticos. Nessa relação simbiótica entre movimento e espaço, o corpo torna mais intensa a atmosfera reflexiva e meditativa, formando uma combinação de sons suaves e reflexos que atravessam a lente da câmera. A lente se mantém fixa, em um único ponto, fazendo do vídeo uma espécie de plano-sequência, com uma tomada única, como alguém que observa a cena por inteiro.
Nossa educação social e cultural nos leva à necessidade de metas, objetivos, pontos de chegada, como uma imposição mesmo do sistema neoliberal ao qual estamos quase todos imersos. Em tudo é preciso pôr um propósito, tudo deve ter uma razão. “Volta” nasce de um corpo inserido nesse contexto e de perguntas que me faço: É possível quebrar esse ciclo/sistema? Será mesmo que experimentar um continuum já não é suficiente, já que, tantas vezes, passamos pela vida sem percebê-la, sem prestar atenção, sem enxergá-la? Se, como diz Chogyam Trungpa: “o caminho é o objetivo”, precisamos alcançar uma tomada de consciência individual e coletiva, para além da materialidade e da ilusão, para que possamos deixar de perpetuar e sustentar os mesmos padrões de pensamentos e comportamentos, acrescentando uma potência transformadora a cada volta.